Pingos de chuva caiam pesadamente sobre a calçada escorregadia daquela avenida completamente deserta, exceto por um cachorro que revirava uma lata de lixo na esquina e por um casal de amigos que iam caminhando pelo meio-fio: pulando nas poças, rindo e empurrando um ao outro. Eu simplesmente ignorava a felicidade de ambos e continuava minha caminhada sem destino, com as mãos enfiadas no bolso do meu casaco. Os olhos baixos iam contando os ladrilhos da calçada, um a um, enquanto meu corpo sentia cada pingo de chuva gelado que caia sobre minha roupa. Um arrepio correu pelo meu corpo e por poucos segundos eu me curvei, por causa do frio, que era apenas o coadjuvante daquela noite, já que só as lembranças povoavam meu pensamento. Nada mais que lembranças.
A cada passo, a cada gota de chuva que caia no meu rosto, a cada eco que se podia ouvir nos becos escuros e amedrontadores, uma recordação a mais vinha passar na minha frente, como um filme que eu precisava esquecer, mas que era simplesmente impossível e inútil. Ah, como esquecer aqueles olhos verdes tão profundos quanto o fundo do mar: justo os olhos que me cativaram naquela noite estrelada e fria de um dia qualquer do mês de agosto? E suas mãos delicadas que acariciavam meus cabelos enquanto uma musica reinava num salão onde incontáveis corpos dançavam o ritmo daquela musica alegre e animada... Não, não dava para esquecer. Ou melhor, eu não queria esquecer tudo aquilo!
Uma lágrima involuntária escorreu pelo meu rosto, misturando-se assim às incalculáveis gotas de chuva que encharcavam meus cabelos negros e minha roupa discreta. Tudo o que eu pude fazer foi me encolher ainda mais dentro daquele casaco de couro preto, enquanto os olhos marejados observavam uma cidade adormecida, sem as famosas luzes e as milhares de pessoas que desfilam por aquelas calçadas largas. Agora, tudo parecia morto: as pessoas, as lojas caríssimas, as buzinas que nunca cessam e as luzes coloridas. Tudo morrera, tudo...
Depois de andar por mais de três quilômetros incansavelmente e sem um destino traçado, eu finalmente decidi me sentar num banco de praça. Por um segundo, recostei a cabeça numa parede, como se as lembranças fossem fortes demais para uma pessoa só e eu precisasse de um apoio para não cair. Eram apenas lembranças... Lembranças do dia em que nos sentamos nesse mesmo banco em que estou agora e conversamos por horas a fio, sem ao menos perceber o sol ir descansar e a lua vir reinar soberana: eram coisas aparentemente inúteis como o nome do primeiro cachorro que tivemos ou então em como eram chatos os encontros familiares, principalmente quando não se conhece ninguém. Os olhos verdes que tanto me encantaram na primeira vez que ele me puxou pra dançar, agora me encaravam com veemência, como se os mesmos olhos pudessem descobrir todas as verdades sobre mim, apenas mais uma garota de cabelos negros e pensamentos insanos. Era uma noite misteriosa e incrivelmente gelada, mas isso realmente não me importou quando ele debruçou-se sobre mim e beijou delicadamente meus lábios úmidos, que esperavam ansiosamente por aquele momento, assim como uma criança aguarda pacientemente a chegada do Papai Noel. E sim, eu poderia ficar nos seus braços até o fim dos dias e eu não me importaria, não mesmo...
Tentei balbuciar alguma coisa, mas desisti graças às lagrimas que já conseguiam sufocar minha voz. Eu simplesmente me afundei ainda mais dentro daquele casaco enormemente grande para meu corpo pequeno e frágil: o cheiro que ainda estava naquele casaco era dele, talvez meu único amor verdadeiro.
- E por que acabar desse jeito, tão drástico e improvável? – eu sussurrei para mim mesma, sem esperar a resposta de alguém.
Respirei fundo e aquele perfume se fez presente nos meus pulmões: era um cheiro único, que eu nunca sentira em outros braços ou em outras épocas. Nem que eu quisesse... Secando uma lágrima, tirei minhas mãos do bolso do casaco de couro marrom com uma foto em mãos: com os olhos embaçados pelas lágrimas, tentava reconhecer naquele pedaço de papel os meus olhos verdes e o meu sorriso encantador. Mais algumas lágrimas e gotas de chuva caíram sobre a foto, e delicadamente eu acariciei a foto e encontrei naquele pedaço de papel o retrato do único capaz de me mostrar o que era um verdadeiro amor. Afinal, desde o dia em que a carta chegara trazendo a noticia do seu falecimento, eu não conseguia desviar meu pensamento para outra coisa que fosse: eu ainda o amava, ora! Levantei com a foto em mãos e coloquei-a delicadamente sobre o banco em que estava sentada. Com a voz embargada e os olhos fixos naquele retrato, balbuciei num sussurro que só ele podia ouvir:
- Pois bem, Duke... Eu não tenho mais você para me ouvir, afinal a morte me impediu de viver o resto da minha vida com você. Mas mesmo que os anos passem e eu me case com alguém, saiba que foi só VOCÊ que eu amei. E se eu te deixei ir praquela maldita guerra civil, saiba que eu tenho orgulho de ter amado e namorado o maior herói que a humanidade já teve noticias. – peguei novamente a foto e levemente beijei a imagem daquele moço feliz e cativante que se fazia presente naquele impresso, o meu herói.
Deixei a foto em cima do banco e saí pela rua completamente deserta, pisando nas poças que a chuva fizera e olhando uma vitrine apagada. Mas antes que o banco saísse da minha vista, me virei bruscamente com um brilho diferente no olhar e gritei, sem medo de que algum vizinho saísse na janela esbravejando palavrões e gritos na janela:
- Você não faz ideia de como eu te admiro! Você não faz ideia, meu amor e herói, não faz ideia... – logo, um homem de pijama marrom e branco saiu na sacada de um dos pequenos apartamentos que me rodeavam e ameaçou tacar um vaso de flores na minha cabeça se eu não parasse com aquele escândalo, enquanto eu gesticulava incansavelmente para o banco, com os olhos marejados, mas uma incrível felicidade no coração: felicidade por ter provado o verdadeiro amor. Ignorando o gordo careca que aparecera na sacada, continuei sem medo ou culpa. – Ah, e antes que eu me esqueça, eu te amo Duke. Te amo demais! E mesmo que circunstancias tolas demais se comparadas com o nosso amor tenham nos separado, saiba que você será para sempre o meu herói e eu serei sempre a sua única princesa indefesa, SEMPRE!


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